
Em termos de políticas sociais, do que mais gosto são dos bairros que foram construídos na periferia das grandes cidades. Bairros acolhedores para pessoas de diversas origens social e étnica com o objectivo de lhes dar uma vida condigna tirando-as, deste modo, da pobreza. Acabaram-se os bairros de lata, as tendas improvisadas, enfim, acabou-se com a vergonha a que o terceiro mundo nos habituou. É tão bom saber que, nestes bairros sociais, o convívio pode propiciar momentos extraordinários de partilha e diálogos interculturais.

Os recentes episódios de guerrilha urbana entre ciganos e africanos mostraram, para a consternação de muitos, que afinal as coisas nem sempre resultam como seria de esperar. Contudo, não convém exagerar: como referiu o governo e a polícia, uma centena de tiros na Quinta da Fonte – periferia de Lisboa – e uma dezena de feridos representam uma situação pontual nos índices de criminalidade. Nada de preocupante como os jornalistas tentam alegar. E, para além de pontual, essas situações estão confinadas a locais muito restritos. Por isso, os cidadãos não têm de se preocupar. Como nos filmes, só acontece na televisão. A polícia de proximidade, com os meios que tem, consegue facilmente resolver o problema e repor a ordem. De mais a mais, contra aqueles que dizem que isto é prova da emergência social, dos problemas do desemprego e da pobreza crescente, é preciso recordar que existem os apoios, tais como o rendimento de inserção, os apoios à natalidade, a redução de impostos e benefícios fiscais para os escalões mais baixos e toda uma equipa de psicólogos e assistentes sociais para um auxílio mais humanizado. Bonito.
Agora, sem sarcasmos. Eis no que a ideia do “vamos tratar do pobre antes que ele trate de nós” resulta: num rotundo fracasso social.
Se ninguém questiona o facto de o Estado ter a obrigação de prestar assistência a quem mais precisa, é perfeitamente legítimo questionar a forma como essa assistência tem sido feita. Os apoios sociais, que supostamente seriam temporários, extraordinários, transformaram-se em apoios vitalícios que “vicia” quem as aufere e colocam o Estado numa situação de constante pressão por falta de alternativas. Criou-se um beco sem saída. A imagem que perpassa do Estado para a opinião pública é bastante constrangedora. O Estado parece ter medo de certas pessoas, por isso apoia-as em quase tudo exigindo em contrapartida que não andem a provocar desacatos. Porém, os mais avisados já perceberam que se não respeitar essa condição ainda serão mais beneficiados. Que o digam as assistentes sociais que são constantemente ameaçadas se não derem mais dinheiro àqueles que, supostamente, mais precisam. Entretanto, para equilibrar as contas, revê-se o Código do Trabalho com o intuito de aumentar a carga horária semanal. Desta forma, sustenta-se a Segurança Social para subsidiar aqueles que, supostamente, mais precisam mas dizem que é em nome da competitividade.

Mas cuidado: parece que a classe média está a passar um mau bocado. Prova disso são os créditos acumulados e o número crescente de casas hipotecadas. O governo percebeu que também neste caso é preciso ajudar, mas aqui a ideia é mais perversa. Se o povo não paga o que deve, os bancos vão à falência e o país colapsa. Por isso, mais vale ajudar os bancos ajudando as pessoas. Se os portugueses fossem todos uma cambada de ignorantes, diria que esta é uma jogada de mestre.
Neste cálido verão, já levantei o dinheiro todo que tinha, pedi mais ainda aos bancos e vou passar férias de luxo. Em Setembro, veremos no que dá. Se não tiver nada em como sobreviver, conto com o Estado que, supostamente, apoia quem mais precisa.
Após o sol quente me ter batido na cabeça e ter enfrascado umas cervejas frescas, talvez compre uma arma cujo anúncio de venda vi no Hiper Modelo de Angra e vá andar aos tiros. Mas não vou disparar sobre ciganos. Talvez vá mesmo dar tiros nos comícios dos partidos políticos ou nas casas oficiais dos membros do governo. Após a violência pontual sobre professores e juízes, nada melhor do que dar tiro nos políticos para ficar com o quadro completo.
Este Verão é para matar!
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