Complot

Este blogue nada tem de original. Fala de assuntos diversos como a política nacional ou internacional. Levanta questões sobre a sociedade moderna. No entanto, pelo seu título - Complot -, algo está submerso, mensagens codificadas que se encontram no meio de inocentes textos. Eis o desafio do século: descobri-las...

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domingo, agosto 05, 2012

Lajes Field e o lado bipolar da Terceira



            Com o tempo e com o acumular de declarações disparatadas por parte de alguns notáveis da Ilha Terceira, sou levado a pensar que a presença militar americana se transformou numa maldição que vai minando a saúde mental dessas pessoas.

            A comumente denominada base americana desperta tanto ódio e paixão nos terceirenses que se torna difícil compreender o que realmente pretendem dela. Se, numa semana, é destaque na imprensa regional por contribuir para a terra com milhões de dólares em pagamentos de salários, na aquisição de bens e serviços, na outra, é alvo de denúncia por parte dos representantes dos trabalhadores portugueses que a acusam de maltratar os seus associados; se a base é cobiçada por boa parte da população que sonha em conseguir um lugar lá dentro, quem consegue entrar é vítima de inveja pelos seus compatriotas; se num dia surge uma notícia a dar conta da redução de efetivos e do consequente despedimento de trabalhadores portugueses, no dia seguinte, (sempre com base em fontes do tipo WikiLeaks) coloca-se a possibilidade de a base se transformar em campo de treinos para caças e outras brincadeiras aeronavais; se um político ou académico dá uma entrevista onde defende a imprescindibilidade dos Açores para a estratégia militar americana, aparece outro a defender a incompetência do Estado Português em negociar as contrapartidas políticas e financeiras; se um estudioso alega que a realidade geostratégica americana já não se define no Atlântico, aparece um político a dizer que a sobrevivência dos restaurantes da ilha depende do número de militares destacados; se os partidos de Esquerda lutam pela paz no mundo, pelo fim de Israel e pela saída dos americanos da BA4, logo a seguir exigem um numerus clausus de postos de trabalhos para os portugueses; se algum diplomata ou militar americano falar sobre os Açores é logo trucidado por cometer ingerência, mas se um português falar sobre os americanos pode dizer o que bem entende, pois tem sempre razão. 

            Essas variações acentuadas de humor tornaram-se patológicas e o pior é que quem mais sofre com isto tudo são justamente os mais calados: os portugueses que lá trabalham. 

            Aliás, a esse respeito, um dia alguém há de me explicar como é que se escolhe um comunista para os representar na mesa das negociações.

            Passado mais de sessenta anos após a sua criação, esta base, que foi palco de momentos marcantes da História Moderna, que tanto contribuiu para o desenvolvimento da Terceira e dos Açores, que tanto ajudou famílias a sair da miséria, que tanto apoiou a reconstrução de Angra e o desenvolvimento da Praia, requalificou equipamentos, igrejas e outras infraestruturas por toda a ilha, que contribuiu para a modernização da agricultura regional, que enriqueceu a cultura terceirense, cinge-se agora a um único princípio: se os americanos continuarem a dar milhões e jobs muito bem; senão que zarpem daqui para fora. 

            Não defendo nem subserviência, nem rutura. Na minha visão romântica, preferia que houvesse mais discrição e pacatez nas negociações; menos ruído, menos che guevaras a urdir na imprensa, e sobretudo mais realismo. A base americana não é o RSI da Terceira.

            Quando os nossos amigos americanos se forem embora o que restará da sua presença? Inúmeros estudos académicos, indemnizações aos trabalhadores, arquivos fotojornalísticos, mas nem um museu permanente e em exclusividade para homenagear este relacionamento bilateral, perpetuando a memória para as gerações futuras, nem um protocolo com o US Departement of Veterans Affairs. E eu a pensar que os americanos eram os únicos obcecados com os dólares.

            Sempre defendi e defenderei o debate livre de ideias e o abanar de consciências, mas não me revejo nem aceito o discurso populista à custa do sofrimento de outrem.

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