Complot

Este blogue nada tem de original. Fala de assuntos diversos como a política nacional ou internacional. Levanta questões sobre a sociedade moderna. No entanto, pelo seu título - Complot -, algo está submerso, mensagens codificadas que se encontram no meio de inocentes textos. Eis o desafio do século: descobri-las...

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sábado, abril 24, 2010

Paraíso Perdido T2C25


A humildade de César


A vida corre sobre rodas para o PS Açores. No entanto, este domínio absoluto do poder político na região é avassalador. E perigoso.


Durante o congresso, vimos uma imprensa regional prostrada perante a magnanimidade de César. Após o congresso, vimos os jornais inundados de textos a elogiarem o “novo rumo” do PS Açores. Isto não é novidade, já vem de trás. De há muitos anos para cá, o PS cresceu e foi abafando qualquer oposição seja ela oriunda de dentro da estrutura política regional ou até da própria República. As últimas revisões constitucionais acabaram com o contra-poder que vinha do continente e tornou-se tabu para qualquer órgão político nacional tecer críticas à condução da vida política insular. A nível interno, a oposição encontra-se esmagada pela prepotência não só da maioria parlamentar do PS como do próprio governo regional.



Dir-me-ão, em termos revanchista, que nos sucessivos governos do PSD, com Mota Amaral, o mesmo acontecia. Pois bem, o problema reside precisamente nesse ponto: o contra-poder não existe nos Açores. De uma maioria também ela estranguladora se saiu para outra, inquinando a Democracia açoriana, e o único lugar político da região onde há actualmente um cheirinho do “checks and balances” é na Câmara de Angra do Heroísmo. Obviamente que quem manda não gosta de ver as suas decisões revogadas ou adiadas ou de sentir um escrutínio político que, por vezes, roça a maldade. - Por isso, não me surpreende que a presidente da edilidade, Andreia Cardoso, se torne em breve uma das figuras políticas mais hábeis do PS. Aliás, ou isso ou cai - Mas depois do de uma maioria parlamentar, temos agora uma maioria autárquica do PS. Esta omnipresença socialista é de tal modo perigosa que o próprio Carlos César pediu humildade ao partido, seguido por idênticos alertas proferidos por outros notáveis do partido.



Não foram só boas notícias que vieram do congresso. Houve dois aspectos altamente negativos que marcaram o “novo ciclo” socialista. Por um lado, o discurso final do Presidente do PS Açores perpassou a ideia de que ou se é pelo PS ou então é-se contra os Açores. Este é um sinal inequívoco da arrogância perigosa em que caminha o partido. Por outro, com a enumeração de estatísticas que favorecem as políticas do governo (os números negativos não contam) pintou a região num tom cor-de-rosa, desfasando-a da realidade. O marketing político vulgo propaganda, tão apreciado por José Sócrates, chegou aos Açores. Por isso, findo o discurso de encerramento, repeti uma pergunta que já fizera no passado: a oposição é assim tão má nos Açores?



Na altura, quando formulei pela primeira vez esta pergunta, não dei conta da armadilha que ela trazia, pois partia de uma suposição errada. Mais do que perguntar se a oposição é má, a pergunta deveria ser: será o PS é assim tão bom?


O congresso e a semana seguinte foram a oportunidade para obter algumas respostas. O novo ciclo anunciado com pompa por Carlos César corresponde na verdade ao acatamento das grandes propostas e reivindicações feitas pelos partidos da oposição e pelos principais agentes económicos da região. Da estratégia para o turismo até à acção social, nada do que foi dito é novo, a não ser para os socialistas açorianos. Mas estas propostas foram recebidas como se fosse a novidade do século. Por mais que algumas individualidades reiterassem que já o haviam proposto anteriormente, nada feito: pelos vistos, uma coisa é pedir que as passagens aéreas sejam mais baratas, outra é dizer que poderão custar menos de cem euros. A aclamação de pé tornava-se patética, os posteriores discursos e textos laudatórios um total exercício de cinismo.


Existe uma teoria que diz que quanto mais alto for o preço do barril do petróleo, menor é a liberdade nos países exportadores. Acrescento outra: quanto mais tempo durar uma crise económica num país democrático, menos respeito se tem pela cultura democrática.

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