Complot

Este blogue nada tem de original. Fala de assuntos diversos como a política nacional ou internacional. Levanta questões sobre a sociedade moderna. No entanto, pelo seu título - Complot -, algo está submerso, mensagens codificadas que se encontram no meio de inocentes textos. Eis o desafio do século: descobri-las...

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terça-feira, junho 05, 2012

Pai, desculpa por estar desempregado

            A inutilidade é talvez uma das maiores provações que o ser humano pode sofrer. O desemprego é isso mesmo: sentir-se inútil. Ainda para mais, quando se andou anos e anos a estudar. A crise obriga-nos a rever os nossos padrões de vida, a sacrificarmo-nos e a ter paciência, esperando que ela passe. Aceitamos, mesmo que a custo, que se possa ganhar menos. Mas perder o emprego ou não arranjar trabalho é dramático. E, por isso, é uma dor intolerável.
            Um jovem que não trabalha sente que desiludiu os pais. Sente até vergonha por continuar a depender dos seus progenitores. Por mais que se lhe diga que não deve pensar assim, que melhores dias virão, que há quem esteja bem pior, ele recusa essa benevolência porque a dor e a revolta são demasiado poderosas. Ele não trabalha: fracassou. Até ganhar coragem e força anímica, muito terá ainda de passar; muito terá ainda de sacrificar.
            O grito de alarme foi dado em Março de 2011. A Geração à Rasca, a juventude licenciada e ansiosa por contribuir para o país, manifestava-se adivinhando um flagelo que iria chegar como uma bomba. O trabalho ia escasseando, as portas da oportunidade iam fechando.
O problema dessa geração tornou-se universal. Quase todos os países da Europa estão a passar pelo mesmo. E não se trata de excesso de expectativas ou desejo de chegar logo ao topo. Muitos jovens detentores de licenciaturas, mestrados e até doutoramentos; engenheiros; enfermeiros; professores aceitam empregos pouco remunerados e que até diferem da sua área de formação. O objetivo deles é trabalhar; ser e sentir-se útil. O problema é que a crise pode não ser o fator determinante deste flagelo social.
            A espera por melhores dias e, quiçá, uma oportunidade tornou-se insustentável. Lançar um negócio por conta própria é demasiado arriscado quando não há dinheiro, nem dos próprios nem dos bancos, e quando o consumo diminui drasticamente. Os pais servem de amparo para lhes dar casa, comida e pagar certas contas. Mas o dinheiro não dá para tudo. E, verdade seja dita, nem todos têm perfil de patrão ou de empreendedor.
A alternativa que resta é emigrar.
            Nos anos sessenta, emigrar era uma inevitabilidade perante um país pobre e isolado como era o Portugal de então. Agora, a nossa massa cinzenta emigra porque Portugal voltou a ser pobre. Só não está orgulhosamente fechado para o mundo. Nos anos sessenta, os emigrantes portugueses sofriam muito, viviam nos primeiros tempos em condições miseráveis antes de se integrar condignamente no país que os acolhia, mas voltar para Portugal era uma alternativa inadmissível: significava pobreza, fome, guerra colonial, ditadura. Quando se partia, havia a certeza de que se venceria. Só um tolo ou um incompetente é que não conseguia.
            Atualmente, é diferente. Apesar das novas tecnologias de comunicação que permitem atenuar as saudades, a família sabe que a precariedade manter-se-á. A competição entre jovens é muito grande e os empregos vão escasseando - em breve, receberemos notícias de portugueses que voltaram porque não conseguiram trabalho. O positivo é que os portugueses têm uma capacidade de adaptação e de integração inigualáveis. Talvez seja graças ao Período dos Descobrimentos que se assimilou nos nossos genes. O negativo é que esta geração, que todos os meses vai partindo para o estrangeiro, não voltará. Ninguém sabe ao certo qual o impacto que terá no país esta nova forma de emigração. Mas é fácil adivinhar que as oportunidades que se irão criando obrigá-los-á a assumir compromissos e a delinear objetivos de longo prazo. É óbvio que esta geração formará e criará a sua família no estrangeiro. É óbvio que Portugal não recuperará tão cedo os empregos que se forem perdendo. E é óbvio que, no entretanto, uma nova geração de jovens portugueses se formará e estará pronta para entrar no mundo do trabalho. Por isso, ao continuar assim, sem uma retoma significativa da economia portuguesa, no final deste ano, serão mais de 100 mil jovens a ter saído do país.
            Contudo, fica a dúvida: este novo tipo de desemprego não será mais o resultado da mudança de paradigma de trabalho, ao invés da consequência de uma crise estrutural que o Ocidente vive? Pede-se às pessoas que trabalhem por mais tempo, mais horas e por menos dinheiro ao mesmo tempo que a juventude qualificada se encontra inativa. Pede-se mais produtividade no trabalho quando é impossível rivalizar com sistemas de produção cada vez mais robotizados ou com trabalhadores cujas condições laborais se assemelham aos dos escravos. Pede-se mais dedicação ao trabalho ao mesmo tempo que as sociedades modernas vão definhando por falta de natalidade. Pede-se maior formação a uma juventude que já é de si altamente formada quando o tempo urge porque essas mesmas pessoas estão na casa dos 30 anos e não querem estudar mais, mas sim trabalhar.
            Não andaremos todos enganados à procura de uma solução que só levará à ruína da nossa civilização?

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