Complot

Este blogue nada tem de original. Fala de assuntos diversos como a política nacional ou internacional. Levanta questões sobre a sociedade moderna. No entanto, pelo seu título - Complot -, algo está submerso, mensagens codificadas que se encontram no meio de inocentes textos. Eis o desafio do século: descobri-las...

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domingo, outubro 26, 2008

Quanto menos votas, mais gosto de ti


Nunca será de mais reflectir sobre o resultado das eleições regionais de 2008. Qual o significado da abstenção, qual a vantagem do círculo de compensação, que força tem o partido vencedor, que tipo de fraqueza tem o vencido, como capitalizar a ascensão dos pequenos partidos no interesse dos açorianos, e, por fim, que tipo de democracia teremos nos Açores. Estas são as questões cruciais cujas respostas variam, infelizmente, em função do interesse político-partidário. No entanto, quanto mais se reflectir nelas, mais hipóteses se tem de encontrar as respostas mais adequadas e verdadeiras.


O problema da elevada abstenção tem por base duas situações. Para além do facto de nesta eleição não haver surpresas, nem expectativas criadas quanto aos candidatos, recorrendo aos arquivos históricos sobre anteriores eleições, era possível antecipar quem as ganharia para este novo mandato. A própria imprensa nacional e regional ajudou a desfazer uma possível dúvida ao dar sempre por garantido a vitória do PS. Acrescenta-se a isso a outra circunstância de que esta abstenção – cada vez mais alta – é um fenómeno que ilustra a própria condição arquipelágica da região. Se as pessoas vivem fora da sua ilha natal por força do trabalho, é perfeitamente normal que a abstenção seja assim tão alta. Poucos são aqueles que actualizam o seu cartão de eleitor.



O círculo de compensação foi vantajoso para os partidos de extrema-esquerda. Quer o Bloco de Esquerda, quer o Partido Comunista ficarão com uma voz mais forte e respeitada dentro do quadro político-partidário dos Açores. Não há dúvida de que quem ganha são os açorianos. Mas esta vitória, que enriquece a Assembleia Regional, traz também a possibilidade de enriquecer todos os partidos, pois actualmente existia por parte dos deputados da maioria socialista e a maioria da oposição uma atitude enfadonha no plenário. Os debates não tinham interesse a não ser quando alguns mais atrevidos desatavam aos insultos – o que não deixa de ser lamentável. Uma concorrência pluralista acaba por permitir mais competitividade entre os partidos. Veremos qual deles é o mais criativo e oportuno.


Os bons resultados do CDS com a entrada em cena de cinco deputados e a eleição de um deputado do PPM pela a ilha do Corvo poderão servir de exemplo para aqueles que se interrogam sobre a relação que deve manter um deputado com os seus eleitores. Nestes dois casos, não foi o círculo de compensação que ajudou; nestes dois casos, não foi propriamente o partido que venceu. Foram os candidatos que se batalharam pelas suas convicções conseguindo convencer os eleitores das suas ilhas que podiam confiar neles. Este é o tipo de relacionamento entre eleito e eleitorado que se deve instituir novamente na cultura democrática não só açoriana como também continental.


O PSD, o derrotado destas eleições, não está bem. Ainda está a pagar a prolongada era de Mota Amaral que muitos ainda lembram com ressentimento. A grande prova dessa má condição, que alastra até ao partido nacional, é a forma como, logo a seguir às eleições, alguns notáveis do partido já enumeravam as razões da derrota e sobretudo sabiam como resolver os problemas do partido. Dias antes, a sintonia com o líder era total e inquestionável. Assim não. O partido só demonstra a podridão que existe nos seus quadros. O período de nojo político é, nestas circunstâncias, a atitude mais prudente. Mas não. O partido não consegue emudecer. Se não foi com Costa Neves, há-de ser agora com Berta Cabral. A euforia está instalada nas principais comissões políticas. Mas Berta Cabral será mesmo uma boa aposta? Os resultados que obteve em Ponta Delgada, com uma diferença de 20% em relação ao PS, deviam ser encarados com preocupação. Doravante, nada está assegurado no PSD, nem lugares a deputados, nem autarquias. Berta Cabral teve a sua oportunidade para defrontar Carlos César. Não agarrou, por isso a liderança do PSD não deveria passar por ela. Se é preciso dar lugar aos novos, por que razão indicar alguém ainda tão conotado com o passado? As incongruências multiplicam-se e o partido afunda-se. E as eleições autárquicas estão à porta…


Por fim, o primeiro: o PS. Venceu mas não convenceu. Não há euforia porque os tempos são de mudanças, pois a sombra de um potencial líder paira nas costas de Carlos César. Quem será o próximo presidente socialista? Se virmos bem, há muitos que ambicionam o lugar, mas poucos, muito poucos, os que têm real aptidão. O discurso de vencido Costa Neves, que teve uma interpretação um pouco quixotesca e foi encarado com desdém, deveria ser o lema dos socialistas: “Nada será como dantes”. As eleições não são o único requisito para provar a existência de uma democracia. Os socialistas fazem por não perceber a tão famigerada expressão “falta de oxigénio”, mas os açorianos percebem-na e até agora calaram-se. Até agora.


As expectativas estão altas. Não em relação ao PS, mas sim relativamente à oposição. As próximas autárquicas terão de ser encaradas por todos os partidos como uma luta de vida ou morte.

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