Complot

Este blogue nada tem de original. Fala de assuntos diversos como a política nacional ou internacional. Levanta questões sobre a sociedade moderna. No entanto, pelo seu título - Complot -, algo está submerso, mensagens codificadas que se encontram no meio de inocentes textos. Eis o desafio do século: descobri-las...

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sábado, março 15, 2014

Ascensão e queda do PS Açores




Afinal, quem anda a dividir os Açorianos? Quem anda a pôr os açorianos uns contra os outros? Basta de hipocrisia. Sempre houve vozes que reclamaram por mais investimento para a sua ilha. Sempre houve vozes que, de forma mais efusiva ou mais serena, contestaram as opções dos governos por acharem que não satisfaziam as necessidades da sua terra. O bairrismo sempre existiu, sempre existirá. Então, por que razão este “eterno” bairrismo provoca, desta vez, tanto incómodo?

Na realidade, o problema é mais complexo e, por isso, mais perigoso para a autonomia. Para refutar este crescente bairrismo, notáveis e históricos da Região desdobram-se em apelos à unidade dos açorianos, condenando quem supostamente anda a dividi-los. Mas omitem sempre quem despoletou esta divisão, a saber, o Governo Regional e o PS. 

A estratégia do PS consistiu em por os açorianos contra o Governo de Passos Coelho e o Presidente da República, assumindo a narrativa de que eles eram os bons e os de Lisboa os maus que só prejudicam a Região. O feitiço virou-se contra o feiticeiro: os açorianos sentem que este Governo Regional já não é o dos Açores, mas sim o de São Miguel. 

O PS Açores está há 17 anos no poder. Durante todo esse período, foi liderado por Carlos César, um homem carismático e consensual para os socialistas. Ele deixou marcas indeléveis no seu partido e nos Açores. Na altura, as possíveis divisões entre militantes ou barões do PS eram rapidamente saneadas graças à sua capacidade política e à sua autoridade enquanto presidente. Só agora é que se vê como a sua saída tem sido traumática para o PS. 

Atualmente, os socialistas açorianos têm um líder eleito mas ainda não feito. Vasco Cordeiro pode mandar no partido e no governo mas as sucessivas trapalhadas no Parlamento e no Governo mostram como ainda não conseguiu impor um rumo e uma liderança eficazes. Venceu as eleições, mas ainda não convenceu. Não é fácil ser-se o sucessor de um líder tão influente como Carlos César. Só não vê quem não quer.

A falta de liderança é notória não só pelas políticas erráticas do Governo Regional, como também pela questão melindrosa levantada pelo economista Mário Fortuna quando disse que a vice-presidência – ou melhor, Sérgio Ávila – tem demasiado poder no seio do governo. Nada disso é novo, mas a situação tornou-se caricata porque já ninguém disfarça no executivo. 

O conceito de vice-presidência, na aceção açoriana, foi levado ao extremo, pois o comando do governo tornou-se bicéfalo. Mesmo que na oposição a dupla liderança seja inofensiva (veja-se o Bloco de Esquerda), no governo faz toda a diferença, e para pior quando ela não é publicamente assumida.

Por isso, ao sentir este sufoco e a necessidade de se afirmar - nem que seja para convencer que tudo isto não passe de um disparate - não me admiraria nada que Vasco Cordeiro oferecesse o cargo de eurodeputado a Sérgio Ávila. Acabava com uma vice-presidência demasiado poderosa e conseguia um bom candidato para as europeias. Do mesmo modo, ao colocar uma mulher como vice-presidente em sua substituição, ganhava pontos de popularidade, afastando de vez a ameaça em que Sérgio Ávila se transformou. 

Não passando este exercício de xadrez político como uma mera especulação, não é difícil perceber que a ideia de remodelação governamental tenha entrado na ordem do dia.

O PS domina a política açoriana em todos os quadrantes. A única forma de perder o poder é pela implosão interna. Os primeiros sinais foram dados.

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