Complot

Este blogue nada tem de original. Fala de assuntos diversos como a política nacional ou internacional. Levanta questões sobre a sociedade moderna. No entanto, pelo seu título - Complot -, algo está submerso, mensagens codificadas que se encontram no meio de inocentes textos. Eis o desafio do século: descobri-las...

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Localização: Praia da Vitória, Terceira, Portugal

domingo, setembro 30, 2012

O “nosso” presidente


1. O último cartaz de Vasco Cordeiro é sem dúvida o melhor que apareceu até agora. Para além de esteticamente apelativo, a sua mensagem é simples e objetiva: sugere o candidato como presidente do Governo Regional, levando quem olha para ele a imaginar como seria se ocupasse o cargo. Nos dias que correm, sabemos como a imagem de um político vale mais do que as suas ideias (a gravata preta, introduzida por Nicolas Sarkozy e continuada por François Hollande, não é um detalhe de somenos. Induz que esta moda irá pegar nos políticos. Já que se fala em indumentárias, a gravata fina também regressa, isto graças a Don Draper).

    Apesar de ter sido nomeado para representar o PS nas eleições e apesar de nem sequer ser o líder do PS, Vasco Cordeiro poderá vir ser a primeiro político a presidir uma região, eleito pelo povo, mas nunca sufragado pelos seus pares do partido. Queimando todas as etapas que constituem uma ascensão política considerada normal, Vasco Cordeiro ficou dispensado do que seria – em gíria futebolística – as eliminatórias, sendo automaticamente qualificado para a fase final. É obra. É a Democracia, no PS.

    Por isso, o outdoor pode parecer um golpe de génio para alguns mas, para outros, é uma autêntica provocação visto que, ainda antes de ter decorrido o dia do sufrágio, o candidato do PS proclama-se antecipadamente como o presidente de todos os açorianos. Já vi muitos presidentes efetivamente eleitos a demonstrar mais humildade. Esta é a pedra no sapato de Vasco Cordeiro que não consegue desvincular-se do seu passado como governante nunca eleito, mas sempre convidado, e atuando sempre na sombra quer do ainda Presidente Carlos César, quer de outros socialistas com enorme peso no PS.

2. A notícia que relata a intenção do Governo Regional, através da Secretaria da Economia, em criar uma escola para marítimos em colaboração com a Escola Náutica Infante D. Henrique e a Universidade dos Açores é de louvar (mais uma vez quem sai bem na fotografia é a Secretária Luísa Schanderl).

    Tem-se falado muito no potencial do mar, mas tem-se visto pouca ação. Esta iniciativa acaba por ser um passo inteligente no aproveitamento deste recurso natural. Espera-se que o próximo governo possa tirar partido desta ideia e alargar o conceito para todas as escolas da Região, criando uma disciplina para as crianças e jovens açorianos.

3. Muitos açorianos têm manifestado dúvidas e cautelas relativamente à campanha eleitoral. Uns dizem que as contas da Região estão certas, apesar dos hospitais e outras instituições públicas estarem falidos, outros dizem que a dívida regional é astronómica.

    Não vale a pena criar muita expetativa. Independentemente de quem ganhar, os próximos tempos serão duros para os açorianos. Os únicos beneficiados serão os pequenos partidos e o grande que irá para a oposição. Nenhum político está realmente preparado para fazer face às dificuldades que se avizinham. Esta crise não consta dos livros de História. Por enquanto.

domingo, setembro 23, 2012

Os “Sopranos” do PSD Terceira


1. Na campanha para as últimas eleições autárquicas, o PSD de Angra deu que falar a nível nacional por causa de uns vídeos em que participavam candidatos às Juntas de Freguesia do concelho. Divulgados pelo programa de televisão dos “Gato Fedorento” - “Esmiuçar os Sufrágios” -, os vídeos não deixaram ninguém indiferente, tanto havendo reações positivas como negativas.

    A campanha era feita com a prata da casa e com poucos recursos, daí algum amadorismo na produção, mas no essencial reconhecia-se e louvava-se a coragem e a determinação quer dos candidatos, quer do líder António Ventura: era gente do povo, sem superficialidades, nem tiques de caciquismo político.


    Com o tempo, o uso das novas tecnologias melhorou substancialmente. Alguns açorianos optam por criar arte ou fazer humor através de vídeos originais ou manipulados. Muitos conhecem o “remake” do diálogo entre Darth Vader e o filho Luke Skywalker dobrado em micaelense. Mais recentemente, a política entrou nesse campo criativo e irreverente. O vídeo “Os Açores explicados aos continentais” é daqueles que manifestamente perdurará como um projeto original, engraçado e, por isso, saudado por todos os ilhéus, independentemente de ter sido realizado com o intuito de apoiar Berta Cabral. Porém, há outros que de humor têm muito pouco. O que deles sobressai é puro veneno, roçando a difamação. A liberdade de expressão tem dessas coisas, e ainda bem.


    Circula, pelas redes sociais e pelos blogues, um vídeo que coloca uma caricatura dos responsáveis do PSD Terceira conspirando sobre o partido e sobre as eleições num ambiente baseado na série “Os Sopranos”. De humor não tem nada a não ser para aqueles que não vão com a cara dos protagonistas ou que detestem o PSD. Talvez esse vídeo seja uma resposta a outro que põe em cena Carlos César, Vasco Cordeiro e José Sócrates num cenário que recria a máfia e que é simplesmente imbecil. Mas mais uma vez, tendo em conta o que se passa pelo mundo com as caricaturas de Maomé, ainda bem que a nossa civilização é livre para proferir os disparates que bem entende, cabendo à justiça pôr um freio quando o limite da razoabilidade é ultrapassado.


    Só espero que o PSD Terceira seja superior a este tipo de provocações e não responda pela mesma moeda. Sei que não faltariam ideias “engraçadas” como a de colocar Sérgio Ávila no papel de rei, num excerto revisitado da “Guerra dos Tronos”, em que ele manda decapitar quem questione à sua liderança, sempre rodeado por um criado zeloso, protagonizado por Berto Messias (nem preciso de dizer quem seria a rainha). Mas isto não passa de puro veneno e infantilidade.


    Obviamente que estes vídeos não influenciam em nada os resultados eleitorais, somente contribuem para acicatar ainda mais as já fracas relações entre o PSD e o PS. Neste contexto, a partidarite assemelha-se à febre clubística do futebol. Se não tivéssemos em crise, ainda haveria dinheiro para fazer uns cachecóis a ilustrar a situação. Como disse o fundador das Relações Públicas, Ivy Lee: “Falem bem ou falem mal, o que importa é que falem de mim”.


2. No seguimento do famoso vídeo. Constituir uma lista de deputados em cada círculo eleitoral é sempre ingrato e, depois de apresentada, há sempre quem não esteja satisfeito e a critique. A liberdade dentro de um partido tem de permitir este tipo de divergências. O unanimismo – ou subserviência – só minam a credibilidade da política e dos seus responsáveis.


Se fosse eu a escolher, faria diferente, como qualquer outra pessoa. Por exemplo, nunca poria Joel Neto como mandatário. Por mim, ele pertenceria à lista e num lugar elegível. Mas não conheço o teor das conversas entre o jornalista e o PSD, nem os compromissos de cada um. A minha única certeza é que se o PSD ganhar, há pelo menos duas Secretarias Regionais na Terceira que merecem o seu contributo. A política tem carecido de gente com inteligência, independência e criatividade, qualidades que não lhe falta.


    Já sabemos que a lista para deputados do PS Terceira é consensual, fantástica e vencedora. Anos de supremacia política permitem este inquestionável luxo “democrático”.

sábado, setembro 15, 2012

A salvação do PSD está nos Açores


    De um momento para o outro, o Governo de Portugal está em vias de ruir. As novas mediadas de austeridade romperam com a aceitação generalizada dos sacrifícios que o país tinha de fazer. Cidadãos, empresários, patrões, sindicatos, notáveis dos partidos que suportam a maioria. Todos frontalmente contra. Algo não vai bem. O Governo pode ter meses de vida.

    O limite para os sacrifícios não tem uma medição certa, mas é possível inferi-lo com base nas reações da opinião pública, ou através das declarações de instituições ou associações representativas de classes profissionais, ou simplesmente através do que se publica e se diz pela comunicação social. Mas é sobretudo verificável através do aumento da pobreza e da decadência social dos portugueses. O descontentamento crescente – e perigoso - que se faz sentir tem justamente a ver a sensação de que os sacrifícios não estão a produzir os resultados esperados. O défice continua altíssimo, o Estado continua gordo, as reformas estruturais são ineficientes e nalguns casos inexistentes, e a isto acrescentam-se as polémicas com governantes que só minam ainda mais a credibilidade do governo.

    Perante esta realidade, é difícil afirmar com toda a certeza que o governo cumprirá toda a legislatura. Mais ainda, é possível antever a sua queda ainda este ano aquando da votação do Orçamento para 2013. Depois de um ano e meio em funções, vê-se um governo titubeante que vacila perante a crítica e, como tal, por mais que recue nas suas propostas iniciais, acaba por levantar a suspeita de que já não sabe como conduzir o processo de reajustamento orçamental e financeiro do país. Até eu começo a duvidar do sucesso deste governo, mesmo que este proceda a uma grande remodelação ministerial.

    Perspetiva-se então alguns cenários. No caso de haver eleições antecipadas, ou em razão do chumbo do Orçamento e consequente demissão do governo, ou por decisão do Presidente da República, o PS de António José Seguro ganhará as eleições. Mas sem maioria. No entanto, será de prever a necessidade de uma coligação na qual o CDS será certamente convidado. E aqui entra a questão mais polémica: como pode o CDS sobreviver ao atual governo? De facto, quem está decididamente desacreditado e em perigo em termos eleitorais é o PSD. O PSD pode ser relegado para um papel quase insignificante se este cenário se concretizar. E isto contando que Pedro Passos Coelho nem sequer se candidate por óbvias razões.

Mas a questão torna-se ainda mais bicuda. Estaria o PS disposto a coligar-se com o CDS de Paulo Portas? Obviamente, nem sequer me refiro aos outros partidos de esquerda porque refutaram desde o início a intervenção da Troika, o que tornou a sua colaboração impossível. De um momento para o outro, perante estas possibilidades, mesmo que remotas mas não impossíveis, surge na memória o impasse político por que passou a Grécia. Assim, há fortes possibilidades de Portugal se tornar uma nova Grécia. Sabemos o quanto é suicida.

Qualquer militante ou simpatizante do PSD está profundamente abalado com o que se passa no Governo de Passos Coelho. É fácil atirar a toalha ao chão. Mas não devemos desistir. Por mais ressentimento que se tenha em relação a Passos Coelho, a queda do Governo pode ter repercussões ainda mais graves. Por isso, é preciso acreditar que nas próximas semanas haverá espaço para corrigir os erros cometidos.

Nos Açores, percebeu-se que o PSD regional não se revê nas medidas da República e pretende, ao invés, encetar por um outro caminho com vista ao controlo das contas regionais. Passar parte da austeridade da Região para as instituições políticas açorianas é moralmente correto. Apostar na revitalização do mercado interno com o intuito de depender menos do exterior é uma aposta financeira certeira e apostar no turismo pela via da redução dos transportes aéreos é economicamente sensato.

    É lógico que a aposta na exportação é uma necessidade vital para Região, mas não cabe ao Governo dos Açores decidir que estratégias adotar. Quem exporta são as empresas. Por isso, o próximo governo deverá facilitar - em termos fiscais e no apoio ao investimento e até na promoção - o processo de exportação, mas nunca intrometer-se. Aliás, o triste exemplo da exploração turística por parte do governo socialista é prova disso.

    Ao vencer as eleições, Berta Cabral poderá mostrar como a social-democracia funciona quando tem pés, tronco e membros; quando se tem um rumo, uma estratégia de longo prazo com base na matriz ideológica do PSD.

domingo, setembro 09, 2012

A Decadência dos Povos Ocidentais


    Ao observar a crescente preocupação dos políticos das nações mais desenvolvidas perante uma crise com um desfecho improvável e ao ouvir a satisfação daqueles que proclamam “eu bem vos disse” relativamente ao suposto fracasso do capitalismo, e defendendo o regresso do socialismo puro e duro, mais vale desligar a televisão e rasgar os jornais: os arquivos das bibliotecas públicas darão a verdadeira resposta sobre o que efectivamente se passa no mundo de hoje.

    Com base na queda do muro de Berlim, em 1989, Francis Fukuyama, filósofo americano, escreveu o Fim da História, proclamando o fim do conflito de ideologias, graças à vitória da democracia enquanto regime político universal. Contudo, décadas antes, o historiador inglês, Arnold Toynbee, em O Estudo da História (1936-1954), defendeu que o fim da história aparece pelo menos uma vez em cada civilização. Isto significa que quando uma civilização atinge a universalidade, o seu povo atinge a “miragem da imortalidade”. Por outras palavras, esta tese sustenta que quando uma sociedade defende que a sua história chegou ao fim é, normalmente, uma sociedade cuja história está próxima do declínio.


    A civilização ocidental poderá ser diferente das outras civilizações na medida em que a sua influência no mundo é muito mais vasta e a mais cobiçada de todas. No entanto, esta razão não é suficiente para que se defenda que o Ocidente ultrapasse facilmente a crise actual ou que continue a dominar o mundo no futuro. Aliás, o ressurgimento islâmico e o dinamismo económico da Ásia são a prova de que as outras civilizações estão bem ativas. A China está a atravessar a maior e mais rápida ascensão ao poder mundial que qualquer país atravessou – nem mesmo os Estados Unidos.


    Caroll Quigley, outro historiador americano, fez a descrição dos sintomas que indiciam o fim de uma civilização. Segundo o referido autor, é um período “de grave depressão económica, diminuição dos níveis de vida, guerras civis ente os diferentes grupos de interesse e crescente aumento da iliteracia. A sociedade torna-se cada vez mais fraca. Para este processo de desgaste, legisla-se em vão. Mas o declínio continua. Os diferentes níveis religiosos, intelectuais, sociais e políticos de sociedade começam a perder em grande escala a confiança da população. Começam a alastrar na sociedade novos movimentos religiosos. Há uma crescente relutância em lutar pela sociedade, ou mesmo apoiá-la, pagando os impostos.” Esta transcrição bastante inquietante, por ser o espelho do que actualmente se passa, foi escrita em 1961 – se ainda não há registo de guerras civis é porque as consequências da crise ainda não chegaram maciçamente às pessoas. O Ocidente encontra-se mais do que nunca fragilizado e incapaz de se defender perante uma possível ameaça externa. Este bem pode ser o momento ideal para despoletar atentados terroristas de larga escala, como para permitir que nações de outros continentes possam aproveitar-se dessa fragilidade para dar azo às suas ambições imperialistas. Apesar do crescimento da economia do Ocidente estagnar e do crescimento demográfico ser negativo, o autor considera que o declínio moral e a desunião política são os problemas mais importantes e reveladores da tal decadência civilizacional.

    A história das civilizações indica que tudo é possível, mas mostra também que, perante as adversidades, elas podem renovar-se. Será o Ocidente capaz de travar ou inverter este processo interno de decadência?

terça-feira, setembro 04, 2012

Para quando os debates televisivos?


    A RTP Açores e as direções partidárias já devem estar em conversações com vista à transmissão dos debates entre os vários candidatos às eleições regionais de outubro. Estes debates não são decisivos para o desfecho eleitoral, mas fomentam grande interesse, e é uma prova de caráter onde os candidatos enfrentam os seus adversários frente-a-frente, mostrando aos eleitores a forma como reagem perante a pressão e o stresse.

    Penso que se deve dar primazia a debates a dois, que são mais esclarecedores, nos quais devem participar os partidos que tiveram representação parlamentar no último mandato (mesmo que a votação do PPM esteja confinada à ilha do Corvo). Os restantes partidos devem ter a oportunidade de apresentar as suas propostas pela televisão num programa próprio, diferenciando-os dos restantes, isto porque é preciso destacar os partidos mediante os resultados eleitorais obtidos.

    Obviamente que todas as atenções irão incidir sobre o debate que colocará Berta Cabral e Vasco Cordeiro na mesma mesa, mas não deixará de ser interessante observar a prestação de Artur Lima quer com o candidato do PS, quer com a candidata do PSD. O CDS/PP terá um papel fundamental caso o partido que vença as eleições não obtenha maioria absoluta. Ao contrário do que acontece no continente, uma coligação permanente não interessa para o caso açoriano, sendo o apoio pontual uma alternativa mais correta. Outro candidato a seguir com atenção nos debates será o deputado monárquico, Paulo Estêvão. É-lhe conhecida a frontalidade e a boa capacidade oratória.

    Após as eleições

    Independentemente de quem ganhar as eleições, o próximo governo será obrigado a apresentar um orçamento retificativo mas só depois de ter procedido a uma auditoria às contas públicas da Região. O atual memorando de entendimento, assinado com o Governo da República, tem condicionantes que prejudicam a autonomia política, o que implica a sua revisão – algo de muito complicado, pois não se pode exigir isso sem dar algo em troca.

    É importante notar que o empréstimo da República (135 milhões de euros) é pouco significativo e a duração de pagamento (10 anos) demasiado longa tendo em conta a dívida e compromissos futuros a que os Açores se vincularam nos últimos anos. Haverá outras obrigações que irão vencer nos próximos tempos, o que obriga a perguntar: onde irá o próximo Governo Regional buscar o dinheiro?

    O Plano e Orçamento da Região deverá atender a esta situação, aumentando as verbas para o pagamento desses acordos financeiros. É bom que se perceba que a dependência do exterior reduz a autonomia regional. Quanto mais depressa se equilibrar o saldo das dívidas, mais depressa os políticos açorianos recuperarão o destino dos Açores.