Complot

Este blogue nada tem de original. Fala de assuntos diversos como a política nacional ou internacional. Levanta questões sobre a sociedade moderna. No entanto, pelo seu título - Complot -, algo está submerso, mensagens codificadas que se encontram no meio de inocentes textos. Eis o desafio do século: descobri-las...

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quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A modernização das forças policiais


Ler o artigo no Jornal de Notícias


Gostei desta proposta do governo!

Na minha biblioteca


terça-feira, fevereiro 27, 2007

Falta de bom senso

Alguns elementos deste governo não sabem ler estatísticas e pensam só que os números podem melhorar a situação do país. Um pouco de bom senso, por favor!

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Portas de regresso


Há quem diga que Paulo Portas terá de acrescentar algo de novo no seu discurso, se regressar à política de liderança - digo isso porque ele nunca deixou a política activa, não fosse ele deputado).

No entanto, acho que ele nem precisa disso. A actual oposição do CDS, por parte de Ribeiro e Castro é displicente, vazia de conteúdo programático e com uma ideologia demasiado óbvia para um partido de Direita.


É difícil ser oposição hoje em dia, visto que o Partido Socialista detém uma maioria absoluta sem igual. A conjuntura económica europeia é mais favorável e, em abono da verdade, Sócrates possui uma visão acertada nalgumas reformas que desencadeou.


Agora, a meio do mandato, quer-se resultados. E aí a oposição tem a oportunidade, bem como a obrigação em fiscalizar e denunciar o que não está a correr bem. Portas tem a possibilidade de voltar em grande e dar, por arrasto, um safanão ao PSD.


Substituir Ribeiro e Castro será então tarefa fácil.

domingo, fevereiro 25, 2007

O que se ouve por aqui


Os Dream Theater acabaram de misturar o seu último trabalho que se intitulará Systematic Chaos. Para os fãs, será preciso aguardar até Junho para a estreia oficial deste novo CD.


Há uns meses atrás, a banda tinha convidado quem quisesse a juntar-se a eles para participar num coro que está incluído numa das faixas do novo trabalho. Tal pena Nova Iorque ser tão longe. Tinha lá estado em Setembro, mas fiquei-me pelo passeio turístico.

Na caixa que mudou o mundo


No ano de 2006, o canal de televisão a:2 transmitiu a série Rome que fez muito sucesso pelo facto de mostrar com bastante verosimilhança - se bem que em forma de ficção - a sociedade romana tal qual era na Antiguidade, nomeadamente as classes abastada e política.
Soube há pouco que existe uma segunda temporada transmitida pela HBO. Tal pena a televisão portuguesa não apostar nesta série novamente.

A superioridade moral da Esquerda


No Domingo à noite, após o anúncio dos resultados do referendo, os portugueses assistiriam a um espectáculo lamentável protagonizado por muitos vencedores do "sim", que decorreu um pouco por todo o país. Entre choros e risos de alegria, entre champanhe e buffet, o cúmulo do ridículo foi atingido com a chegada dos dirigentes do Bloco de Esquerda à sua sede, mostrando, como pano de fundo, um cartaz intitulado "Bem-vindos ao século XXI". Posso escrever esta crítica à vontade porque fui defensor do "sim" e, nessa noite, não houve nada para festejar a não ser lamentar o triste progresso da Humanidade.

Quando se fala de perspectiva económica para um país, torna-se cada vez mais difícil distinguir o que são politicas de Esquerda e de Direita. Se falarmos de pessoas responsáveis, atentas ao fenómeno da globalização, estas sabem que não existem muitas alternativas para tornar um país competitivo e bem sucedido nesta nova era de trocas comerciais. A Esquerda, no entanto, pode enveredar por dois caminhos. Pode encetar pela via do socialismo sul-americano "à la Chavez" ou então seguir a Terceira Via, do tão aclamado e agora odiado Tony Blair. Em Portugal e na Europa em geral, os socialistas optaram pela segunda hipótese, pois a primeira é inviável porque pressupõe tornar um estado ditatorial, se bem que disfarçado. Para a Direita, o capitalismo e o liberalismo económico funcionam. É preciso limar as arestas, permitir que as boas oportunidades cheguem a todos, daí uma maior preocupação social que até muito recentemente se pensava que fosse um exclusivo da Esquerda. Claro que, para a extrema-esquerda europeia, as políticas de Chavez são mais sedutoras. A centralização no Estado, as nacionalizações das empresas e o ódio aos Estados Unidos representam um sonho para qualquer candidato – mesmo que inconsciente – a ditador.

Onde a Esquerda encontrou um refúgio que a ajuda a determinar o seu "ser" e a distanciar-se da Direita é nas chamadas questões fracturantes. O aborto, a eutanásia, o casamento Gay, a procriação assistida e até a pena de morte; todas estas temáticas são ricas em polémicas e constituem o maior equívoco político de todos os tempos. Se é a favor dessas temáticas é de Esquerda; se é contra é, naturalmente, de Direita. Porém, o mundo não é todo a preto e branco. Existe muitas áreas cinzentas. Na questão do referendo ao aborto, a Esquerda que tanto cantou vitória devia ter sido comedida nas emoções. Na verdade, o progresso da Humanidade não se verifica com a aprovação de leis que permitam que qualquer pessoa decida sobre a vida de outrem. O progresso da Humanidade verifica-se essencialmente no desenvolvimento da ciência, na erradicação de doenças, da pobreza, de guerras e na promoção da paz. Sempre defendi que o Estado tinha falhado na questão do aborto clandestino e, por estar resignado com esta derrota, votaria "sim" no referendo. Todavia, enganei-me. Não foi só o Estado, como também foi a Humanidade. Numa sociedade toda ela informada e moderna, a questão do aborto nem se poria em causa porque todos conheceriam e utilizariam os métodos contraceptivos, bem como estariam a par das questões de planeamento familiar. Não haveria gravidezes indesejadas, porque as mulheres teriam simplesmente filhos quando bem entendessem. Mas este mundo, utópico, não acontece. Mais vale então ser pragmático e comodista.

Com esta vitória, todos nós perdemos um pouco de humanidade. Mas não vale a pena continuar com choramingas porque, em breve, haverá outra questão fracturante em cima da mesa. A democracia já não consiste em dar voz ao povo para que este escolha as pessoas com as melhores opções para o seu país. A coisa resume-se agora à concordância ou não sobre um conjunto de leis relativamente aos costumes da sociedade.

No Domingo, vi prepotência, arrogância, superioridade estúpida por parte de uma certa Esquerda, que me fez recordar um ditado popular: "Não faças aos outros, aquilo que não gostasses que te fizessem a ti". Lembrei-me então de Saddam Hussein e da sua terrível morte. Sobre a questão fracturante da pena de morte tenho uma teoria: sou contra a pena de morte até matarem alguém que me diz muito.

Na caixa que mudou o mundo


A terceira temporada de Lost tem sido penosa, arrastando-se em contradições e dúvidas que se amontoam. Mas um fã não desiste e vê sempre com esperanças que mude para melhor.

Um outro mundo


Mel Gibson esmerou-se nesta sua nova produção cinematogáfica.


Excelente! Não percebo porque não tenha sido nomeado para melhor argumento ou até melhor filme.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Ainda na ressaca do referendo

No Domingo, quase vomitei quando vi a postura arrogante e nojenta do Bloco de Esquerda com o seu cartaz "bem vindos ao século XXI".
A modernidade não é a aprovação desta lei nem da eutanásia, nem do casamento gay, enfim, das questões fracturantes e sua resolução. Dar toda a liberdade individual não representa passos para a modernidade como muitos defendem.
A modernidade criou a ciência que tenta responder às dúvidas e ao sofrimento do Homem. No caso da sexualidade, a ciência criou métodos contraceptivos para impedir a procriação sem impedir a cópula. O Homem criou políticas sociais de planeamento familiar com o fim de informar e responsabilizar as pessoas pelos seus actos. No entanto, o Estado e a Humanidade falharam, porque o aborto livre é a derradeira (inaceitável) hipótese que, numa sociedade totalmente desenvolvida e esclarecida, nem se poria em causa porque todos estariam precavidos.
Falhamos. Não é uma questão de vitória, mas sim resignação. Votei "sim" assim.
Uma sociedade moderna é aquela que não tem políticas do mal menor. Não há outras palavras para dizer que o aborto livre é indubitavelmente a capacidade de decidir sobre a vida de alguém.

Volta Berlusconi!


As eleições em Itália não foram há pouco tempo? Falava-se de instabilidade com Berlusconi mas encontram-se sempre pior protagonistas para figuras tristes.

domingo, fevereiro 18, 2007

Amo-te para sempre?


Esta crónica não tem a pretensão de aconselhar, de orientar as pessoas sobre a temática do amor ou da sexualidade. Pretende dissertar sobre a relação entre um homem e uma mulher; um homem e outro homem; uma mulher e outra mulher. Nada de amor de pais para filhos ou de amor pelo próximo. É do amor tout court que aqui se trata. Há quem diga que o mundo está demasiado dependente do petróleo, que muitas das guerras a que assistimos impotentes são o resultado dessa dependência e cobiça. Mas há outra guerra escondida que começa e acaba todos os dias, mesmo perto ou no meio de nós. É a guerra do amor.

No sentido figurado ou literal, o amor mata ou manda matar. A paixão pode ser arrebatadora, desencadeando comportamentos inexplicáveis e, muitas vezes, condenáveis. Há quem mate por amor. Mas porquê ir preso, se essa pessoa não estava no seu perfeito juízo; se essa pessoa matou por amor? O ciúme também é amor. O ódio também é amor, mas ao contrário. Na verdade, se os Homens agissem sempre por impulso, há muito que a civilização teria acabado. Por isso, o amor nasce como logo a seguir morre, para renascer mais tarde noutro contexto, com outros protagonistas. Com a globalização, o amor toma novas formas, propaga-se tal como a peste pelo mundo. As novas tecnologias são um novo meio para a difusão deste sentimento inexplicável e inerente ao Homem. Encetar relações amorosas pela Internet. Viajar de avião para conquistar o parceiro. Tudo serve para seduzir a presa. Ao longo dos tempos, as técnicas de conquista amorosa foram-se aperfeiçoando, mas sobretudo “imediatizando”. Não se pode perder tempo e o comodismo dá o mote para a nova era do amor.

A emancipação das mulheres contribuiu definitivamente para essa nova era. Agora, o homem dá-se ao luxo de não andar sempre a lutar pela parceira, pois ela agora tem também a obrigação de fazer o mesmo. Neste jogo, em que tantas almas fenecem, que somente a poesia sabe explicar, dois adversários se confrontam com as mesmas armas e as mesmas regras. O romantismo morreu?

Já agora, o que é o romantismo numa relação amorosa? Oferecer flores? Jantar à luz das velas? Declarar o amor a alguém de joelhos, à noite, numa praia deserta, em plena lua cheia? Ou será simplesmente viver o resto da vida com a mesma pessoa, sem perder aquela chama do princípio da relação? Amor ou paixão? Qual o melhor? O amor alimenta-se dele próprio. Se as raízes forem fortes, persistirá ao longo do tempo, ultrapassando a cronologia humana. Dá segurança e torna a vida uma rotina agradável. A paixão, essa maldita, que nos transforma noutro ser, subjugando-nos ao poder do outro, alimenta-se do superficial, do material. Consome com muito ardor mas por pouco tempo. A chama esvanece com o tempo. Dói, mas sabe bem sofrê-la. A ciência bem tenta explicar o que é a paixão. Do ponto vista psicológico ou até biológico. Quais as substâncias que despertam no cérebro este sentimento. Que implicações pode ter no organismo; quais os sintomas comportamentais. Galileu descobriu que a terra é redonda; Cristóvão Colombo descobriu um novo mundo. Dan Brown descobriu a verdade sobre Jesus Cristo. Ao longo dos séculos, o Homem fez imensas descobertas que contribuíram para o progresso da humanidade. No entanto, não respondeu à maior pergunta: afinal, para que serve o amor?

O amor pode, na verdade, ser só o efeito do cérebro que manda o corpo juntar-se a outro para copular. Há quem diga que o sexo é que faz girar o mundo. E para que serve o sexo? Para procriar e mais nada. O orgasmo é a recompensa para uma boa cópula. Pois é, mas a ciência encarregou-se de inventar formas para impedir a procriação, sem impossibilitar a relação consumada. O Homem inventou uma nova forma de sexo: o sexo só pelo prazer e não pela utilidade. O sexo alargou o seu âmbito. Ele é hetero, homo, bi e coisas mais. Isto não significa que existem heterossexuais ou homossexuais. Existem, sim, actos homossexuais ou heterossexuais. Um segredo revelado: meio mundo anda enganado.

Mas há ainda quem acredite e viva segundo as leis da paixão. Todos nós temos um pouco de masoquismo. Gostamos de sofrer e culpar a paixão por isso.

Por ser intensa e efémera, a paixão torna o Homem num ser eternamente insatisfeito e, por isso, depressivo. Num dia, o mundo está-lhe nas mãos, todos os sentidos ficam apurados e ele agarra-se à vida como se fosse acabar amanhã. Noutro dia, um amor perdido ou não correspondido abalam-no. A morte, que é o antónimo latino de amor, chama-o porque a vida terrena já não interessa. Tudo isto por culpa da paixão. Um parceiro para o resto da vida? É a religião que o diz, não a natureza. Mais do que seres humanos, somos animais; ou será que já não é assim? Um olhar indiscreto para um desconhecido, o sentimento de se sentir desejado por outrem. Uma noite de flirt sem demais consequências. Precisamos disso como de água para viver. Envelhecemos com o medo de perder a nossa beleza, de não ser apreciado. A ciência bem tenta lutar contra o tempo, mas essa luta é vã. Aliada do amor, a arte é outra invenção do Homem de forma a perpetuar-se no tempo. O ser humano é patético. Mas é a criação mais linda de Deus.

Quando se pensava que o Renascimento era a época caracterizada pelo egocentrismo, surge o nosso século que transforma o Homem no ser mais egocêntrico que alguma vez existiu. Até ajudar os outros torna-se um acto egoísta, porque é uma nova forma de satisfazer o ego.

O amor foi inventado pela loucura do Homem, na ânsia de se agradar, agradando aos outros. Proibir o amor? Ninguém pode, porque é uma doença. Não tem cura e é a única que dá prazer. Cada homem, neste planeta, tem o poder de responder à Pergunta da humanidade. Mas a resposta não vai esclarecê-la. Porque a cada um de nós a resposta serve e ilumina a nossa vida. Um dia, mais cedo ou mais tarde, todos nós seremos vítimas do amor.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Afinal, para que serve o vinculativo?

O "sim" venceu no referendo. Mas quem mais venceu foi, mais uma vez, a abstenção. Pode-se mudar na mesma a lei, mesmo que o resultado da eleição não tenha sido vinculativo?

Não me parece que seja assim. O resultado político em nada deveria interferir com o resultado legal. Texto a ler interessante sobre o assunto de Luís Delgado.

O Tribunal Constitucional bem como o Presidente da República deveriam pronunciar-se sobre a situação. As leis são ou não para se serem respeitadas?

sábado, fevereiro 10, 2007

Um outro mundo


A tentativa de uma narração polifónica em que as ligações entre as várias narrativas estão demasiado forçadas. A fragilidade da condição humana é bem retratada. O realizador, sendo mexicano, ganha mais notoriedade e respeito, pois hollywood tem dificuldades (morais? lucrativas?) em financiar filmes deste género.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Professores universitários no desemprego

Quando no ano 2000 se instaurou o subsídio de desemprego para os educadores de infância e professores do ensino básico e secundário, nunca se pensou que este flagelo social atingisse pessoas como professores universitários com doutoramentos e trabalhos científicos publicados, reconhecidos internacionalmente.

Este problema é cada vez mais visível e preocupante. Este governo aposta na contenção salarial e tenta acabar com excesso de funcionários públicos. Estranha-se que o primeiro-ministro nutre tanto carinho pelo conhecimento e pelas novas tecnologias e, ao mesmo tempo, deixe uma certa elite intelectual sofrer com o flagelo do desemprego.

Nas escolas, os jovens não sao tão ingénuos como se pensa. Eles sabem que o canudo já não é uma garantia para o sucesso profissional. Eles sabem que "estudar muito" não é sínónimo de "safar-se na vida". A desmotivação é um factor para o insucesso e abandono escolares. Ao contrário do que a Ministra da Educação advoga, os professores não têm toda a culpa nos índices que envergonham o país no que respeita a educação.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Mais uma ferroada de Marques Mendes

Marques Mendes considerou "radicais" e "extremistas" as declarações do primeiro-ministro José Sócrates no sentido de recusar alterar a lei sobre o aborto caso o "Não" vença no referendo de domingo. "Não compreendo posições radicais e extremistas. Existem pessoas que parecem mais interessadas no jogo partidário do que em resolver os problemas das mulheres", afirmou o líder social-democrata.

É óbvio que se o "não" ganhar é porque os portugueses consideram que a actual lei é a mais correcta. Deve-se então respeitar a vontade popular. Afinal, o referendo não serve para isso?

Se o PSD, principalmente o seu líder, estivesse mesmo empenhado nesta questão, teria há muito proposto uma alternativa à lei em vigor, sem recurso ao referendo.

O PSD deve ficar atento se o "sim" vencer, por forma a acompanhar de perto o processo legislativo que vai enquadrar na prática a resposta positiva ao referendo.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Sobre a violação e o "não" ao aborto

"É evidente que cada um tem liberdade de pensar o que quiser sobre o início da vida humana. Mas quando se fala da destruição dessa vida então essa, como todas as liberdades, tem de ser regulada e protegida. Cada um também tem liberdade de escolher a casa que quiser desde que respeite o plano urbanístico, de escrever o que lhe apetece mas sujeito à lei de imprensa, às regras da privacidade, ao código da publicidade. Quanto mais importante a liberdade, mais regras a defendem. Porque não se protege a liberdade de nascer?"

Mais uma de João César das Neves e o artigo martela por aí fora.

E o embrião que surge de uma violação? Não terá ele o direito de nascer? a lei já contempla esta situação. Pois é, então para os radicais do "não" a actual lei está mal!

domingo, fevereiro 04, 2007

Após o referendo


Na questão sobre a despenalização do aborto, muitos são aqueles que já não conseguem ouvir sequer os argumentos "sim" e "não", porque simplesmente o assunto já esgotou a paciência ad nauseam. A participação negativa de alguns notáveis da sociedade portuguesa terá contribuído definitivamente para este sentimento. Para outros, a discussão já se arrasta há quase uma década, desde o referendo de 1998. Por isso, quanto mais depressa passar esta semana melhor. Ao longo destas últimas semanas foram apresentados argumentos para ambos os lados, usando todos os meios ao dispor dos interessados. Sendo esta a última fase antes do Domingo 11 de Fevereiro, interessa pensar e especular sobre o dia pós-referendo. O que irá mudar no país caso o “sim” ou o “não” vença?

É óbvio que a questão do aborto é delicada. Não há dúvidas de que é um tema complexo, daí a necessidade de se respeitar a opinião do outro, mesmo que vá contra a nossa. Todos os argumentos são válidos, seja a favor ou contra a despenalização. Dito isto e por essa razão, nunca gostei de ver ou participar em debates, preferindo sessões de esclarecimentos onde as pessoas podem tirar dúvidas e tomar sozinhas, sem atropelos de consciência, uma posição mais determinada no sentido do seu voto. Após o dia 11 de Fevereiro, verdade seja dita, Portugal não vai mudar muito. Então, o que poderá mudar?

Existem vários cenários que se podem construir, com base em duas situações. O "sim" vence ou o "não" vence. Há também a hipótese de a abstenção ser tão alta que qualquer resultado obtido não seja vinculativo. Por outras palavras, ficamos como estamos, como se o "não" tivesse vencido. Agora, analiso mais em profundidade cada uma das situações. Se o "não" obtiver mais votos, a lei manter-se-á igual mas os seus defensores reclamarão de certeza políticas mais pró-activas no que concerne o planeamento familiar. Desde o apoio monetário, fiscal, social ou psicológico à mulher, ao alargamento da difusão de informação sobre métodos contraceptivos, todas estas medidas serão delineadas pelos vencedores para que o recurso ao aborto, nomeadamente clandestino, deixe de existir em Portugal. Contudo, em 1998, quando o não venceu, também se pensou assim. O tempo passou, vários governos tomaram posse e voltamos outra vez ao mesmo problema. Afinal, nada foi resolvido: o Estado falhou. Teria gostado de ver um CDS/PP a apresentar uma iniciativa legislativa que fosse ao encontro do princípio "pró-vida" durante a campanha. Teria seduzido muito mais o eleitorado e contribuído positivamente para a famosa elevação do debate que se pretendia. Teria gostado de ver um Marques Mendes que oferecesse alternativas ao "sim" do PS, sem nunca pôr em causa a decisão pessoal dos seus companheiros militantes. Não foi o caso. O que vi foi um PS que defende arduamente o "sim" e que até já dá indicações sobre o que fazer a seguir à votação. Quer o "não", quer o "sim" ganhe.

Se o "sim" vencer, este governo terá uma grande responsabilidade na legislação que entrará em vigor. Como acabar com os abortos clandestinos, quem e como apoiar nas despesas de saúde, o que fazer para as mulheres que queiram abortar após as 10 semanas. Estes pontos são decisivos para que o "sim" seja indubitavelmente responsável. Por isso, a questão do aborto não estará completamente resolvida após o dia do referendo. Entrará numa nova fase. Neste contexto, haverá de facto algumas mudanças. Não creio que os defensores do “não” irão protestar frente às clínicas que realizem interrupções voluntárias de gravidez (IVG) contra as mulheres que recorram a esses serviços. Também não creio que a IVG se torne uma moda, como a febre dos telemóveis a que assistimos há alguns anos atrás. As razões que levarão uma mulher a abortar serão as mesmas que a levam nos dias de hoje a abortar ou, pelo menos, a querer. Mais cedo ou mais tarde, este governo – ou o próximo – terá de adoptar soluções para aumentar a natalidade no país. E não é com certeza com a proibição da prática voluntária do aborto. As políticas de planeamento familiar têm de estar omnipresentes, com ou sem despenalização do aborto. Sem juventude, um país não tem futuro.

Agora, estará o Partido Socialista, mais propriamente o seu líder, preparado para aceitar que o povo responda não à pergunta do referendo? Será o PS humilde o suficiente para acatar as propostas dos defensores do “não”? Ou irá tentar mudar a legislação na Assembleia de forma a ganhar na “secretaria” o que perdeu nas ruas?

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Rir antes de chorar